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4ª Bienal Internacional de Gravura - Douro 2007
O Douro não Desiste..
Com o início do Século XXI nasce a Bienal Internacional de Gravura do Douro.
Os anos passam a correr, frenéticos e, quase sem darmos por isso, já vamos na quarta Edição deste Evento Internacional. Mais uma vez, o Douro manifesta o seu inconformismo e o paradoxo do seu esplendor.
Lamentavelmente, com o interior do país cada vez mais desertificado, vemos diariamente fechar Escolas, Infantários, Hospitais, Centros de Saúde, Maternidades, Repartições Públicas, Empresas, Caminhos-de-ferro, …. só faltando fechar as Aldeias com portões, correntes e cadeados e, apenas porque estas são atravessadas por estradas, tal não acontece verdadeiramente. Neste rol de encerramentos, muitas são as Famílias que se vêm, também elas, obrigadas a encerrar as suas casas e rumar ao litoral e às Cidades maiores que vão crescendo desordenadamente, cada vez mais “Cancerosas” de poluição, desemprego e miséria. Enfim, este é o País que temos e já nos habituamos a este planeamento retrógrado do território, que não vê a Nação como um todo, mas como a soma desconexa de várias partes.
Depois dos lamentos de um Duriense (nunca é demais manifestá-los), e ainda que nada mude, vou finalmente enumerar as muitas virtudes e novidades desta Bienal que insiste em sobreviver e que apesar de tudo, vai crescendo a olhos vistos, muito para além dos horizontes mesquinhos deste país.
Em primeiro lugar destaco com enorme satisfação, a presença da Obra da nossa maior representante das Artes Plásticas, quem havia de ser, a Pintora Paula Rego. É de facto uma honra poder homenagear esta Artista Portuguesa que tem projectado a nossa Arte por todo o mundo da forma que a todos nos orgulha; Outro ponto alto desta Bienal nasceu de uma parceria protocolada com o Município de Vila Nova de Foz - Côa e o Parque Arqueológico do Vale do Côa. Fruto desta lógica e natural relação, intermediada pelo meu colega Agostinho Marafão a quem agradeço toda a amizade e disponibilidade, projectou-se a Exposição “Diálogos” – Gravura Rupestre versus Gravura Contemporânea. Nela poderemos constatar as ténues diferenças formais e estéticas que 25 mil anos não fossilizaram pois, ao vermos essa Mostra, vamos com certeza questionar se alguns atributos contemporâneos, não se encontravam já presentes nos riscos e rabiscos do Homem das Cavernas, bem como, vestígios da Arte Cubista, Surrealista, Informalista e Conceptual. Neste interessante confronto milenar de linhas, manchas e texturas teremos a preciosa colaboração do Dr. Martinho Baptista que nos fará viajar e revelará alguns dos segredos das Gravuras do Vale do Côa, algumas ainda submersas pelas águas dos rios que as acolhem. Sendo um objectivo da organização desde o seu início, o alastramento a outros Municípios do Douro, não podia esse passo ser melhor que esta representação, uma vez que Foz -Côa é, por excelência, o maior Santuário da Gravura do Mundo, local onde pontificam Artistas Gravadores que durante 25 mil anos da nossa existência se dedicaram com afinco impressionante a esta Arte. É pois com grande paixão e emoção, que abraçamos uma das maiores riquezas do Património do nosso país. O Vale do Côa é, sem qualquer dúvida, uma das sete maravilhas do mundo, mas que nem assim, figura como uma das sete maravilhas de Portugal, vá lá saber-se porquê! …talvez por estar no Douro, no interior, não estar em Espanha, no Egipto ou nos Estados Unidos, quem sabe!? Ou porque que se trata de mais uma eleição “Pimba” promovida por esses “bigbrothers” televisivos. Apesar disso, Foz Côa é inquestionavelmente, uma mais-valia para a região do Douro e para o país.
Outra das manifestações artísticas que temos o prazer de apresentar nesta Edição, nasce também ela de uma parceria com a Cooperativa Árvore e confiada ao Comissário, Pintor José Emídio, meu ex-Professor, ao qual agradeço igualmente a sua prestação, dedicação e simpatia. Daqui resultou uma magnífica Exposição onde figuram os Artistas Contemporâneos de maior projecção da nossa arte. Nomes como Vieira da Silva, Ângelo de Sousa, Júlio Resende, José Rodrigues, Graça Morais, Sá Nogueira, Albuquerque Mendes e muitos outros poderão, numa oportunidade única, serem apreciados por quem visitar a Bienal. Outro dos nomes em foco será o de Humberto Marçal que nos brindará com uma inesquecível Exposição da sua autoria e mestria.
Como já vem sendo hábito, teremos ainda uma Exposição na qual iremos apresentar trabalhos dos Comissários da Bienal (Osvaldo Jalil pela Argentina, Maurice Pasternak pela Bélgica, Matilde Marçal por Portugal, José Emídio, Daniel Hompesch, eu próprio) e uma grande representação de países que quase duplicou. Ao todo são 250 gravuras de mais de uma centena de Artistas originários de 47 países de todos os Continentes.
Finalmente, saliento a representação de uma Associação de Gravura que este ano é Nacional e, por isso, dada a escassez das mesmas, nos deixa também muito satisfeitos, trata-se da Associação “Matriz” do Porto, com a qual mantemos uma longa amizade e intercâmbio de ideias. Também, como não podia deixar de acontecer, este ano teremos mais uma Oficina de Gravura em Metal - a décima quarta Edição e vários espectáculos que irão animar as noites de Verão no auditório ao ar livre do Jardim das Piscinas Municipais.
Por tudo isto, só podemos estar satisfeitos com o trabalho desenvolvido nestes dois últimos anos e que levou a esta panóplia de grandes Exposições. Julgo que apesar da grande qualidade das Bienais anteriores, conseguimos uma vez mais, elevar o patamar deste Evento como é sempre nosso objectivo.
Gostaria ainda de lembrar o nosso desejo profundo, que deste projecto nasça com a brevidade possível, um Museu de Gravura Contemporânea, local por excelência justificado pelas centenas de Obras de Arte pertença do Espólio das Bienais e que esperam (im) pacientemente um local adequado à sua comprovada qualidade artística. Está portanto na hora, o início de mais essa luta.
Resta-me agradecer a todos quantos contribuíram para que mais esta Bienal fosse uma realidade e se distinguisse pela sua qualidade. À minha família pelas horas e dias de ausência e demais sacrifícios que da Bienal advêm; ao Executivo da Câmara Municipal de Alijó que tudo tem feito para nos apoiar e alimentado sonhos de maiores realizações culturais; à Junta de Freguesia de Alijó que recentemente, realizou importantes obras de beneficiação do Núcleo de Gravura e que por isso, permitiu a continuidade da formação aos jovens e artistas do nosso Concelho e não só; às Instituições que financiaram, patrocinaram e também aquelas que, em parceria, se uniram à nossa causa nomeadamente a Cooperativa Árvore, o Parque Arqueológico do Vale do Côa e o Município de Vila Nova e Foz Côa; à Galeria de Arte 111; à Associação de Gravura Matriz, bem como, a todos os Comissários, Artistas e amigos da Bienal. A todos agradeço e presto a minha homenagem pelo seu imprescindível apoio.
Para o inesquecível amigo Daniel Hompesch em Paris, envio um grande abraço como sempre.
Uma vez mais o Douro gritou, o Douro não desiste! …até 2010…
Nuno Canelas - Artista Plástico, Director da Bienal
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